domingo, 29 de abril de 2018

DEUS, uma muleta! - Alister McGrath



POR Alister McGrath

Uma das críticas mais comuns ao cristianismo é que ele oferece consolo aos fracassados na vida. A única maneira com que esses indivíduos patéticos conseguem lidar com a vida, como se diz por aí, é inventando um Deus que os conforte. Pessoas de fibra não precisam desse consolo espúrio. Elas simplesmente seguem em frente. A religião é coisa para gente com problemas emocionais – uma muleta para os que não conseguem lidar com a realidade da vida e preferem inventar um mundo imaginário.

É importante notar que essa crítica, na verdade, é uma asserção, e não um argumento cuidadosamente pensado com base em evidências empíricas. Não há prova científica para essa afirmação. Não obstante, muita gente em nossa cultura a considera plausível. Não raro, deparamos com ela em debates e discussões. Como contestá-la?

Em primeiro lugar, temos nos inteirar de suas origens históricas. De onde vem essa crítica? Como era de esperar, seus fundamentos modernos são encontrados nos escritos do psicanalista ateu Sigmund Freud (1856-1939). Para Freud, a fé em Deus é uma ilusão. Ele diz que Deus existe apenas na mente humana. A ideia de Deus é um “desejo que gostaríamos que fosse realidade”, e decorre do nosso desejo de sentido e amor.

“Dizemos a nós mesmos que seria muito bom se existisse um Deus que tivesse criado o mundo e fosse uma Providência benevolente, e que houvesse uma ordem moral no universo e uma vida após a morte. Todavia, o fato surpreendente é que tudo isso acontece exatamente como era de esperar que acreditássemos que deveria acontecer.”[1]

Em outras palavras, inventamos um mundo de faz de conta que corresponda a nossos desejos, em vez de nos reconciliarmos com a dureza do mundo real à nossa volta.

Essa ideia aparece em livros de plena aceitação do grande público, em que Deus é considerado uma ilusão (Richard Dawkins) ou muleta. Essa segunda abordagem tem uma enorme força retórica, já que sua consequência lógica é que todos os que creem em Deus são seres impotentes, pessoas feridas que precisam de ajuda para lidar com as realidades da vida – inventam Deus e fazem dele um meio psicológico espúrio que lhes sirva de apoio. Freud diz (embora sem evidências empíricas) que nosso conceito – e atitudes – em relação a Deus não passam de ilusões infantis talhadas pela experiência que tivemos com nossos pais. Pessoas imaturas jamais perdem a dependência e a confiança infantil no pai e, naturalmente, transferem essa dependência para um “pai extremamente exaltado” e imaginário. Freud deixa claro que ele considera tal fé em Deus algo intelectualmente ingênuo:

“Tudo é tão flagrantemente infantil, tão estranho à realidade, que para qualquer um que tenha uma atitude simpática em relação à humanidade é doloroso imaginar que a maior parte dos mortais jamais será capaz de superar essa visão da vida.”[2]

Deparamos com essa mesma atitude orgulhosa no novo ateísmo, sobretudo em Deus, um delírio (2006),[3] de Richard Dawkins. No fim das contas, isso não passa de uma asserção – uma afirmação categórica que extrai sua credibilidade cultural não da evidência empírica, mas da frequência com que é repetida, por um lado, e da confiança com que é afirmada, por outro.

É praticamente nula a base empírica dessa afirmação ousada de que Deus é meramente a projeção de um desejo infantil de estar sob a proteção de um pai. As credenciais científicas de Freud têm sido severamente criticadas nos últimos tempos, à medida que se torna cada vez mais evidente que suas “investigações científicas” muitas vezes se resumiam a pouco mais do que a validação em retrospecto de seus preconceitos, especialmente sua hostilidade para com a crença em Deus. Freud parte da suposição de que não há Deus; em seguida, tenta mostrar que é possível encontrar uma explicação racional para as pessoas acreditarem em um Deus não existente. Contudo, há uma confusão inegável aqui: o ateísmo é o pressuposto ou a conclusão desse raciocínio efetivamente insatisfatório?

Excetuando-se, porém, a falta desconcertante de fundamentos empíricos, qual é a validade, de fato, desses argumentos? Até que ponto a posição de Freud é coerente? A teoria freudiana parece sofrer de um problema óbvio – especificamente, sua ideia curiosa de um desejo edipiano, universal e subconsciente nos machos de matar o pai e se casar com a mãe. Com base nesse aspecto de seu pensamento, era de esperar dos machos que tivessem, no mínimo, uma base psicológica plausível para querer se livrar do “pai do céu” e descrer dele. De acordo com Freud, as pessoas têm sentimentos negativos e positivos em relação a esse “pai exaltado”, e esses sentimentos negativos podem fazer com que o desejo de que Deus não exista seja tão forte quanto o desejo de que ele exista.

Para Freud, a fé religiosa era ilusória; para C. S. Lewis, o materialismo ateu de Freud refutava a si mesmo. Afinal de contas, o argumento sobre a “projeção” ou “invenção” é uma faca de dois gumes. Freud diz que Deus é a satisfação de um desejo: que um pai celestial cuide de todas as nossas necessidades. Contudo, pode se argumentar de forma lógica e com base em evidências que Freud e outros ateus negam a existência de Deus por causa da necessidade de escapar de uma figura paterna de que não gostam. Afinal de contas, a relação de Freud com o pai era tensa. Não é difícil argumentar que a fé na não existência de Deus provém desse desejo profundo do que não haja a figura paterna. Ou que, se tal figura existe, talvez ela possa – e deva – ser assassinada?

Além disso, Freud não faz justiça à complexidade da ambivalência humana em relação a Deus. Afinal de contas, a verdade sobre o amor de Deus é obra da revelação, e não um insight humano natural. Conforme insistiam tanto Lutero quanto Calvino, o instinto humano mais natural é ter medo de Deus. Como Lewis afirma, Freud não enxerga que existe uma dinâmica psicológica de satisfação do medo tanto quanto do desejo.[4] As pessoas têm motivos para desejar que Deus não exista, bem como para desejar sua existência. Portanto, quando era ateu, Lewis dizia claramente que Deus, para ele, era alguém com quem ele não gostaria de deparar: “Um agnóstico simpático vai sempre falar descontraidamente sobre a ‘busca de Deus pelo homem’. Para mim, pelo menos da forma que eu pensava na época, isso era o mesmo que um rato procurar um gato”.[5]

Com relação ao “argumento” de Freud, o mais grave é que ele equivale à asserção de que a fé do homem em Deus é compatível com o ateísmo. Mas é compatível também com outros sistemas de pensamento – principalmente com a crença cristã de que Deus nos criou com um instinto de volta ao lar celestial. Como disse Agostinho de Hipona em uma oração já citada anteriormente: “Porque nos criaste para ti, e o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em ti”. Freud diz que o ateísmo pode explicar a fé em Deus ou a aspiração humana pelo divino. Talvez possa, embora essa explicação pareça um pouco forçada e artificial em alguns pontos. O cristianismo, porém, explica essa fé e essa aspiração de um modo mais coerente e plausível.

Para finalizar, vamos nos estender um pouco sobre a imagem da muleta. Trata-se de um recurso retórico, e sua mensagem é simples: Deus é coisa de gente emocional e intelectualmente debilitada. Pessoas fortes e sadias não precisam desse falso apoio, desse consolo ilusório. Elas são capazes de cuidar de si mesmas. Deus é coisa de gente fraca e tola. É exatamente a mesma mensagem que encontramos no novo ateísmo, que se orgulha da excelência intelectual de seus principais gurus: Richard Dawkins, Christopher Hitchens, entre outros.

Há duas coisas importantes que devem ser ditas aqui. Em primeiro lugar, a questão diz respeito à verdade, e não à necessidade. O apologeta cristão sempre insistiu que as declarações do cristianismo estão firmemente fundamentadas nos alicerces da verdade. No plano histórico, relacional, existencial e intelectual, a fé cristã fala de coisas do jeito que elas são de fato. Faz parte dessa visão total da realidade a ideia crucial de que os seres humanos foram feitos à “imagem de Deus” e, portanto, têm uma tendência inata de buscar o caminho de volta a Deus – quer gostemos disso, quer não.

Em segundo lugar, quem quebrou a perna vai precisar de muleta. Se você está doente, precisa de remédio. O mundo é assim. Para o cristão, a natureza humana foi prejudicada, ferida e incapacitada pelo pecado. Assim é o mundo. Agostinho de Hipona comparou a igreja a um hospital cheio de gente ferida e doente em recuperação. Freud parece querer dizer que ele e outros ateus são simplesmente seres humanos melhores que não têm necessidade de apoio. Ora, isso não passa de rematada tolice, distante da realidade, porque nega o lado obscuro do ser humano, do qual a cultura contemporânea dá um testemunho perturbador. As pessoas são viciadas em sexo, poder e drogas – para citar apenas três coisas que nos tiram a independência e nos escravizam.

Quer Freud goste, quer não, há algo de terrivelmente errado com a natureza humana. Suas feridas requerem tratamento, suas chagas precisam ser lavadas, as doenças de que padece necessitam de cura e a culpa, de purificação. A imagem da muleta sintetiza a necessidade que temos de intervenção e decorre da percepção de que precisamos de ajuda – ainda que sejamos orgulhosos e convencidos demais para pedir socorro. Freud escreveu boa parte de seu material mais ingênuo sobre a natureza humana depois do fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, e antes do alvorecer da era do nazismo na Alemanha e na Áustria da década de 1930. Muitos dizem que a ascensão de Hitler teria levado Freud a rever, em parte, algumas de suas ideias mais idealistas sobre a natureza humana. Ele morreu muito antes de que se divulgassem as notícias sobre Auschwitz e os demais campos de extermínio nazistas.

No entanto, Freud parece ter notado que havia um problema com seus pressupostos. Já em 1913, ele fez questão de dizer que o psicanalista não era alguém “melhor, mais nobre e tampouco de caráter mais forte”.[6] Vemos aqui o reconhecimento tácito de que o remédio de Freud para o problema do ser humano parece não ter surtido efeito para os seres mais bem qualificados para administrá-lo. Seria, talvez, um caso típico de “médico, cura a ti mesmo”?

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[1] The future of an illusion, New York: Norton, 1961, p. 42. [Edição em português: O future de uma ilusão, tradução do alemão Renato Zwick, revisão técnica e prefácio Renata Udler Cromberg, ensaio biobibliográfico Paulo Endo e Edson Sousa, Porto Alegre: L&PM, 2010.]

[2] Civilization and its discontents, New York: Norton, 1962, p. 21. A tradução oficial em inglês do título dessa obra [“A civilização e seus descontentamentos”] não está correta; melhor seria “A ansiedade na cultura” (Das Unbehagen in der Kultur). [Edição em português: O mal-estar na civilização, tradução Paulo César de Souza, São Paulo: Penguin/Companhia das Letras, 2011.]

[3] Edição em português: Deus, um delírio, 2. reimpr., tradução Fernanda Ravagnani, São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[4] V. The question of God: C. S. Lewis and Sigmund Freud debate God, love, sex and the meaning of life, de Armand Nicholi (New York: Free Press, 2002). [Edição em português: Deus em questão: C. S. Lewis e Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida, tradução Grabriele Greggersen, Viçosa: Ultimato, 2005.]

[5] Surprised by joy, London: Harper Collins, 2002, p. 265.

[6] Future of an illusion, p. 35.

Trecho extraído da obra “Apologética pura e simples: Como levar os que buscam e os que duvidam a encontrar a fé”, de Alister McGrath, publicado por Edições Vida Nova: São Paulo, 2013, p. 171-176. Traduzido por A. G. Mendes. Publicado com permissão.

Alister McGrath (ex-ateu) é presidente do Oxford Centre for Evangelism and Apologetics [Centro para Evangelismo e Apologética em Oxford] e professor de Teologia Histórica na Universidade de Oxford. É autor de diversos livros.
apologetica-pura-simples Como compartilhar a fé com inteligência e imaginação

Apologética pura e simples apresenta um método que atrai não só o intelecto, mas também o coração e a imaginação.

Depois de versar sobre a base bíblica da apologética e as várias formas em que ela foi empregada em diferentes momentos da história, Alister McGrath apresenta diversas maneiras de partilhar a fé. É possível evangelizar, por exemplo, recorrendo-se aos indicadores da fé. E quais são esses indicadores? São elementos como o desejo inato de justiça de todo ser humano, o prazer que sentimos na beleza, a ordem que vemos no mundo físico e muitos outros. O autor mostra também que há muitas formas interessantes de compartilhar a fé — por meio de explanações, debates, histórias e imagens —, e nos ajuda a escolher a que poderá produzir melhores resultados de acordo com nossa personalidade e com o público com o qual dialogamos.

Publicado por Edições Vida Nova.











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